Educação e telas: entre o potencial e o risco com a rápida digitalização

A causa que move o Instituto Órizon é a educação e estamos sempre compartilhando aqui estudos e tendências mais recentes sobre o tema. Sem dúvida, a digitalização e o avanço da inteligência artificial são um dos tópicos mais lembrados quando se fala em educação atualmente, e no início do ano colocamos Tecnologia, digitalização e IA entre as principais tendências para 2026 no campo educacional.

Digitalização da educação não é um assunto que surgiu anteontem, mas nos últimos anos, especialmente a partir da pandemia da Covid-19, o uso de tecnologias digitais, plataformas educacionais e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial, abriu novas possibilidades para o ensino e a aprendizagem.

Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre os impactos do uso excessivo de telas, especialmente entre crianças e adolescentes, e os desafios de incorporar essas tecnologias de forma responsável no ambiente escolar.

Na nossa visão, esse é um tema complexo, que exige uma visão equilibrada. É necessário reconhecer o potencial da tecnologia como aliada da educação, sem ignorar os riscos associados ao seu uso indiscriminado.

TPE defende abordagem intersetorial contra os prejuízos das telas

O tema das telas e da tecnologia na educação tem ganhado cada vez mais espaço no debate público. Iniciativas recentes reforçam essa preocupação. O Todos Pela Educação, parceiro estratégico do Instituto Órizon, incluiu a questão no documento “Educação Já nas Eleições 2026”, ao tratar da necessidade de uma abordagem intersetorial para enfrentar fatores externos que impactam a aprendizagem – entre eles, as telas.

Nesse contexto, o uso excessivo de telas aparece como um dos elementos que demandam atenção, inserido em uma visão mais ampla de políticas educacionais articuladas e baseadas em evidências.

Esse enquadramento é relevante porque desloca o tema de uma discussão isolada – sobre tecnologia em si – para uma perspectiva sistêmica, que considera seus efeitos no desenvolvimento, na aprendizagem e no bem-estar dos estudantes.

Impactos no desenvolvimento e na aprendizagem

Diversos estudos já apontam que o uso excessivo de telas, especialmente na primeira infância, pode afetar aspectos importantes do desenvolvimento, como atenção, linguagem e interação social.

No ambiente escolar, os desafios também são evidentes. A presença constante de dispositivos conectados pode reduzir a capacidade de concentração, fragmentar o processo de aprendizagem, dificultar a mediação pedagógica, e – talvez o mais preocupante – ampliar desigualdades, dependendo do acesso e do uso.

Além disso, o uso de celulares pessoais em sala de aula tem se mostrado um ponto de tensão na relação da escola com os alunos, exigindo diretrizes claras e gestão ativa por parte das escolas. Isso não significa rejeitar a tecnologia, mas reconhecer que sua introdução precisa ser intencional, orientada e adequada às diferentes etapas da educação básica.

Tecnologia com intencionalidade se torna aliada

Se, por um lado, há riscos, por outro, o potencial da tecnologia na educação é inegável. Ferramentas digitais podem apoiar a personalização da aprendizagem, ampliar o acesso a conteúdos de qualidade, fortalecer processos de avaliação e acompanhamento e apoiar professores na gestão pedagógica. Mais recentemente, a inteligência artificial trouxe novas possibilidades que vão desde tutores personalizados até apoio na produção de conteúdo e análise de dados educacionais.

O ponto central, portanto, é a forma como a tecnologia é integrada ao processo educativo. Sem estratégia, ela tende a gerar dispersão. Com intencionalidade, pode ser um vetor de melhoria da qualidade.

O desafio para a educação pública

Na educação pública, a questão ganha ainda mais complexidade. De um lado, há a necessidade de incorporar tecnologias como forma de reduzir desigualdades e preparar estudantes para um mundo cada vez mais digital.

De outro, é fundamental evitar que a digitalização aconteça de forma desestruturada, sem diretrizes pedagógicas claras ou sem considerar os impactos no desenvolvimento dos alunos. Isso exige políticas públicas bem definidas, formação adequada de professores, critérios para uso de dispositivos em sala de aula e integração entre tecnologia e proposta pedagógica.

A proximidade do novo ciclo do Plano Nacional de Educação, a partir de 2027, torna esse tema ainda mais relevante. As metas ambiciosas do PNE dependem, em parte, do uso estratégico da tecnologia, mas também podem ser comprometidas se seus riscos não forem adequadamente geridos.

O papel do investimento social nesse contexto

Diante desse cenário, o papel de organizações da sociedade civil e do investimento social se torna ainda mais importante. Instituições como o Instituto Órizon, em parceria com organizações como o Todos Pela Educação, contribuem para qualificar o debate, apoiar a produção de conhecimento e fortalecer iniciativas que conectam inovação e responsabilidade.

O investimento social pode, por exemplo, apoiar organizações que atuam na interface entre educação e tecnologia, fortalecer a capacidade de implementação de políticas educacionais, fomentar o uso consciente e estratégico de ferramentas digitais e contribuir para uma agenda pública mais qualificada e baseada em evidências

Entre o entusiasmo e o cuidado

A digitalização da educação já uma realidade. A questão é como conduzir esse processo. Evitar o uso indiscriminado de telas, especialmente na primeira infância, regular o uso de dispositivos pessoais em sala de aula e incorporar tecnologias de forma pedagógica e estruturada são caminhos que vêm ganhando consenso entre especialistas e organizações do campo.

Mais do que nunca, será necessário equilibrar inovação com responsabilidade. É nesse ponto que o debate sobre educação e tecnologia deixa de ser técnico e se torna estratégico — definindo não apenas como ensinamos, mas como garantimos que a aprendizagem aconteça de forma efetiva, equitativa e sustentável.

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