Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte da rotina das escolas brasileiras. Enchentes, secas prolongadas, tempestades e ondas de calor têm interrompido aulas, danificado infraestruturas, impactado a saúde de estudantes e educadores, aprofundado desigualdades que já existiam.
Nesse contexto, o Todos Pela Educação, organização apoiada pelo Instituto Órizon que é referência nos estudos e advocacy da educação básica no Brasil, apresentou o documento Educação Resiliente, durante evento que reuniu especialistas, pesquisadores, gestores públicos e organizações comprometidas com a proteção do direito à aprendizagem. O Instituto Órizon esteve presente nesse debate para reafirmar seu compromisso com uma agenda estratégica: educação e clima são inseparáveis, e preparar escolas para responder às crises ambientais é uma urgência educacional.
O que revela o documento “Educação Resiliente”
A apresentação do estudo deixou claro: a crise climática já está transformando a experiência escolar de milhões de crianças e adolescentes e continuará acelerando seus impactos caso nada seja feito.
Alguns dados apresentados chamam atenção pela gravidade:
- 34% das escolas brasileiras suspenderam dias letivos em 2023 devido a eventos extremos; em 2024, esse índice chegou a 66% no Sul do país.
- A média nacional de dias sem aula dobrou: de 5 (2023) para 10 (2024).
- Mais de 50% das escolas tiveram danos à infraestrutura por calor extremo, tempestades ou seca.
- 54% dos gestores relataram impactos à saúde da comunidade escolar.
- E os efeitos recaem de forma desigual: redes em territórios mais vulneráveis acumulam mais perdas, mais riscos e mais prejuízos à aprendizagem.
Mais do que alguns dias sem aula, essas interrupções geram trajetórias interrompidas, evasão silenciosa e desigualdades que se ampliam a cada crise climática.
Os dados apresentados dialogam com tendências globais: o Banco Mundial aponta que crianças nascidas hoje viverão duas a cinco vezes mais eventos extremos do que as que cresceram nos anos 1970. E já em 2024, mais de 242 milhões de estudantes no mundo tiveram aulas interrompidas por emergências climáticas.
O Brasil, portanto, não está diante de um risco futuro, está lidando com uma realidade presente.
Provocações trazidas no evento: o que precisamos encarar agora
Durante o encontro, algumas reflexões se destacaram:
1. Resiliência educacional é uma política de proteção social. A escola é o equipamento público mais presente nos territórios. Por isso, precisa ser preparada para proteger comunidades diante de emergências ambientais.
2. A resposta não pode depender da boa vontade local. Apesar de políticas como a PNPDEC, PNMC e o Marco de Sendai, ainda temos ações pontuais, não estruturantes. Falta escala e integração entre os níveis de governo.
3. Além da infraestrutura: é preciso governança. Planos de contingência, formação de professores, protocolos de evacuação e mecanismos de comunicação são tão importantes quanto obras físicas.
4. A ausência de planejamento custa mais caro do que a prevenção. Cada evento extremo sem preparação gera perdas humanas, sociais, educacionais e econômicas – muitas vezes permanentes.
5. Educação climática é parte do currículo do século 21. Preparar estudantes para compreender, mitigar e responder à crise climática é formar cidadãos capazes de enfrentar o mundo real — não um cenário hipotético.
Como essa agenda se conecta ao modelo de venture philanthropy do Instituto Órizon
Para o Instituto Órizon, a discussão sobre educação resiliente está diretamente ligada à forma como apoiamos organizações sociais: com governança, fortalecimento institucional, uso de dados e visão de longo prazo.
O modelo de venture philanthropy que praticamos parte de premissas fundamentais que dialogam com o documento:
1. Investimento baseado em evidências
Assim como não é possível construir resiliência sem dados confiáveis, também não há impacto social sustentável sem métricas consistentes. O Órizon apoia organizações para que planejem, executem e meçam resultados.
2. Fortalecimento institucional como condição para resiliência
Planos de contingência, protocolos, formação e infraestrutura só se sustentam quando as organizações têm capacidade de gestão, um eixo central da atuação do Órizon.
3. Estratégia de longo prazo
Crises climáticas são recorrentes, e respostas emergenciais não resolvem. A filantropia estratégica atua justamente na construção de bases permanentes para que OSCs e redes de ensino não fiquem vulneráveis.
4. Inovação como motor de adaptação
Tecnologias sociais, soluções educacionais climáticas, modelos de gestão territorial e ferramentas de acompanhamento são essenciais para preparar escolas diante de cenários instáveis.
5. Olhar para populações vulneráveis
A crise climática não afeta todos igualmente, e nosso modelo parte exatamente da priorização de crianças e jovens em situação de maior risco educacional.
O que se espera daqui para frente: o papel do investimento social e das OSCs
O evento reforçou que nenhuma escola enfrenta a crise climática sozinha. A construção de redes educacionais resilientes depende de:
- colaboração entre governos, pesquisadores, organizações sociais e filantropia;
- apoio técnico e financeiro de longo prazo;
- fortalecimento das capacidades de gestão local;
- integração entre clima, educação e proteção social.
Organizações da sociedade civil têm papel central nesse processo, desde o apoio às redes de ensino até o desenvolvimento de metodologias replicáveis em diferentes territórios. E cabe aos investidores sociais contribuírem com capital paciente, inteligência de impacto e articulação.
A visão do Instituto Órizon: escolas resilientes como compromisso de futuro
Após a COP30 e diante dos cenários projetados para a América Latina, fica evidente: clima e educação são agendas indissociáveis. O Instituto Órizon vê a pauta climática como eixo estratégico para o futuro, especialmente por seu impacto direto sobre crianças e jovens em vulnerabilidade.
Ao incorporar a resiliência climática em sua visão de apoio institucional, o Órizon reafirma seu compromisso com:
- inovação e soluções baseadas em evidências,
- fortalecimento de organizações que atuam pela educação,
- construção de caminhos que protejam o direito de aprender mesmo em cenários de crise,
- e promoção de políticas públicas mais robustas e estruturantes.
Preparar escolas para enfrentar eventos climáticos extremos não é apenas uma resposta à emergência. É um investimento no futuro do país.