A filantropia relacional aprofunda o impacto social 

Dia-Nacional-da-Filantropia

Em 20 de outubro comemoramos o Dia Nacional da Filantropia! Instituído em 2016 ela possui o propósito de criar consciência nacional de uma maneira articulada e global. Além disso, essa data enfatiza as contribuições do setor filantrópico no Brasil. Aqui no blog do Instituto Órizon estamos sempre buscamos trazer as mais recentes tendências e inovações no campo da filantropia, baseados em estudos e pesquisas que saíram nas principais publicações sobre este campo no mundo. Por exemplo, já falamos sobre abordagens como a “Zero-Problem Philanthropy” sobre um estudo que revelou os principais arquétipos da filantropia.

A importância da filantropia para a sociedade

O sentimento de solidariedade e de doação ao próximo que baseia a filantropia é algo profundamente humano, e as mais diversas sociedades buscaram organizar-se de forma a amparar quem estivesse em dificuldade. Mas a filantropia moderna, como a conhecemos hoje, nasceu a partir de iniciativas individuais de pessoas com muitos recursos. Isso faz com que até hoje haja dificuldade de entendimento e troca entre os doadores, que estão normalmente no topo da pirâmide social, e os beneficiários, que estão na base.  Este é grande entrave para que a filantropia potencialize seu impacto social positivo.     

Felizmente, nos últimos anos, novas abordagens e inovações metodológicas têm buscado empoderar os beneficiários para que comuniquem quais são suas prioridades e conscientizem os filantropos sobre onde e como seus recursos farão mais diferença. Um artigo recente publicado na Stanford Social Innovation Review apresenta uma dessas novas metodologias: a “Relational Philanthropy”, ou Filantropia Relacional.

Dicas para a ampliação do setor de filantropia

As autoras do artigo, Kathleen Boyle Dalen e Tracy L. McFerrin, defendem que o setor filantrópico precisa se tornar mais intencional em sua construção de relacionamentos. Para desenvolver essa filantropia relacional, elas trazem três recomendações: comprometimento em fomentar relacionamentos significativos centrado no “we” (todos nós), em vez do “us/them” (nós/eles); instituição de práticas que promovam o aprendizado compartilhado e aperfeiçoamento contínuo; e desenvolvimento de um padrão de conduta para a filantropia.   

Para as autoras, se combinados, estes três elementos podem ajudar a diminuir significativamente essa distância entre doadores e beneficiários. A primeira recomendação em especial merece ser entendida em profundidade. O relacionamento entre organizações filantrópicas e a comunidade é naturalmente difícil, e se comprometer em abraçar essa dificuldade é um primeiro passo. As organizações vêm buscando ouvir e inserir as demandas da ponta, mas essas conversas ainda são “gated” (fechadas por um “portão”), onde os grupos são convidados, mas em condições altamente controladas. Para diminuir a brecha nesse caso, as organizações devem demonstrar uma liderança que centra nos relacionamentos sem tentar evitar os aspectos mais “messy” (bagunçados) dessas relações em que pontos de vista muito diferentes são confrontados. Ao perseverar frente ao conflito, os relacionamentos sairão fortalecidos.  

Comunidade deve ser um círculo, não uma pirâmide  

Segundo as autoras, quando pensamos em filantropia estrategicamente, raramente há apenas dois lados envolvidos. As questões sendo abordadas costumam ser complexas, com muitas variáveis e graus de imprevisibilidade. Em praticamente qualquer questão, a comunidade terá ao menos três componentes, grupos com interesses que se mesclam e se sobrepõem, como em um diagrama Venn:  

Community keepers (mantenedores da comunidade): são os que estão mais próximos do impacto de determinada questão, cujas vidas são diretamente afetadas. Ou seja, os beneficiários diretos. Eles são o alvo das ações, mas não são os únicos atores presentes na comunidade.  

Community gates (portões da comunidade): são as diferentes organizações, formais ou informais, que atuam na questão que está em jogo: associações comunitárias, ONGs locais etc.  

Community issue influencers (influenciadores da questão na comunidade): são os atores que possuem o “capital social” que pode mudar essa questão, para melhor ou pior. A administração pública, líderes empresariais locais e fundações com foco local podem fazer parte deste grupo.  

Para as autoras, a maior parte das discussões sobre filantropia até hoje não incluem esse terceiro grupo na definição de comunidade. E elas consideram isso um erro. Fator que dificulta o desenho de soluções, sendo a antítese da filantropia relacional. Pois em alguns casos geram um relacionamento adversarial pré-concebido antes mesmo do trabalho começar.  

Quebrando os padrões que mantêm a comunidade em trincheiras 

Na filantropia, há alguns hábitos arraigados que selecionam elementos específicos da comunidade e acabam entrincheirando ainda mais as linhas de divisão. Alguns exemplos de padrões que atrapalham as soluções coletivas são envolver os beneficiários apenas na etapa de implementação, e não no desenho da solução; escolher alguns líderes comunitários e de ONGs “a dedo”, ignorando outros atores que podem ser mais valiosos, e não engajar com pessoas que não têm a experiência direta com os problemas, mas poderiam trazer sua expertise em sua área, apenas em condições muito controladas, impedindo que eles tragam contribuições mais significativas.  

Elas não estão sugerindo convidar todas as facetas da comunidade e colocá-las em situação de igualdade. Isso pode gerar ainda mais ruído e confusão, desperdiçando tempo e energia. Mas um filantropo estratégico deve saber equilibrar todas essas tensões analisando quem está à mesa em cada etapa no processo e quem poderia ser incluído para trazer novos entendimentos.  

Após essa análise sobre quem deve estar à mesa, as autoras sugerem três abordagens para transformar esses relacionamentos em impacto.  

1 – Destravar o entendimento compartilhado sobre a questão:

O filantropo estratégico deve saber analisar e sintetizar os dados trazidos pelos diversos atores envolvidos, convidando-os a compartilhar seus entendimentos de forma franca, não evitando as perspectivas conflitantes.  

2 – Mobilizar os recursos estrategicamente:

Ouvir os diversos atores da comunidade desde o início do processo garante que os recursos dos doadores serão mobilizados de forma mais estratégica para gerar impacto focado nos problemas levantados.  

3 – Desenvolver parcerias e coalizões que expandam o alcance e fortaleçam a sustentabilidade:

A filantropia estratégica deve ter o objetivo de sustentar os bons resultados a longo prazo. Para isso, é preciso “pensar fora da caixa” sobre quem pode ser envolvido no desenvolvimento de uma solução. Tanto membros da comunidade quanto parceiros externos, de pesquisadores e acadêmicos a ativistas e ONGs que ainda não estão presentes naquele território podem contribuir muito com suas expertises.  

Em resumo, nossos modelos mentais moldam a forma como interagirmos com o mundo ao nosso redor. Um modelo de pirâmide traz uma série de comportamentos que são obstáculos à filantropia relacional, que exige um novo modelo, que se parecem mais com redes de círculos conectados. Uma boa forma de começar a mudar esse modelo é desenhar mapas de onde os vários tipos de capital relacional, financeiro e intelectual se localizam, e ativar e engajar todo esse espectro de forma conectada.  

Venture philanthropy e filantropia relacional

O modelo de venture philanthropy tem muito em comum com a filantropia relacional com essa ideia de engajar todos os atores. Principalmente trazendo elementos “externos” que tenham expertises específicas que podem agregar a uma solução que traga maior impacto. Por exemplo, aqui no Órizon temos um ecossistema que inclui fundos de investimento e empresas. Dessa maneira, voluntários dessas organizações se engajam trazendo suas expertises para potencializar o a oferta social de nossas organizações apoiadas. É assim que mudamos o mundo! 

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